domingo, 8 de março de 2015

Salva Vidas (Zachary)

Jogar xadrez com o grande Robert era um instigante passeio mental pelos mais diversos assuntos que, de uma hora para outra, sempre desaguavam nas mulheres, seu tema predileto:
- Não se fazem mais amantes como antigamente. - ele soltou a baforada de seu charuto e moveu seu cavalo no tabuleiro. - Podemos dizer que houve três fases. Na primeira, as mulheres sabiam que as amantes existiam e não falavam nada...
Eu soltei uma risada e traguei o meu charuto, não acrescentei nenhuma observação, eram rituais sagrados àqueles ciclos de raciocínio do meu velho amigo. Qualquer quebra seria um sacrilégio.
- Depois... - continuou ele, apoiando uma das mãos na sua bengala de madeira marrom escuro. - As mulheres ficaram independentes e não toleraram mais isso... - fez uma careta de desdém e coçou o queixo com a mão que empunhava o charuto. Deu mais uma tragada e olhou para o alto. - Acho que essa foi a melhor fase, porque era muito mais excitante o proibido. - riu sozinho ao pronunciar as últimas palavras. - E agora estamos nessa última fase sem graça. - voltou sua atenção para o jogo e moveu mais uma peça.
Não perguntei qual era, bastava dar um tempo para que chegasse ao final dos seus estudos antropológicos sobre as mulheres, que não poderia ser dito a ninguém, exceto a mim, por perigo de linchamento.
- Agora, veja, meu rapaz, elas se unem! Pior! - ergueu o dedo para o alto, enquanto os outros dois equilibravam seu charuto. - Elas se unem... - falou mais baixo. - contra você!
- Por certo! - ri novamente. - Não se deve deixar que elas se conheçam, porque vão sentar e debater nossos defeitos, se bobear, terminam juntas. - empurrei mais uma peça. - Xeque-mate.
- Ahhh, seu vigarista, está aprendendo demais comigo! - desdenhou. - Quando chegou aqui, mal sabia a diferença entre um cavalo e um peão!
Ele falava como se tivesse passado uma década quando, na verdade, íamos completar dois anos de vizinhança. Robert De Niro era um militar da reserva já aposentado que conheci no churrasco do meu amigo e morava nas cercanias do quartel.
Era um homem alto, moreno, forte, por isso o chamávamos de "o grande". Tinha cabelos completamente brancos. Sempre polido, de calça social e camisa bem passada por sua habilidosa e dedicada nora.
- Mas acho que já entramos em uma fase nova. - Busquei um pouco mais de uísque e ofereci-lhe. Voltei a sentar-me à pequena mesa redonda do canto da sala. - Agora, as amantes querem virar as oficiais e as de boa família andam dando uma de amante. Enfim, as putas não sabem mais o seu lugar... - traguei o charuto e bebi um pouco.
- Não sabem mesmo, perdeu a graça. Não há mais pureza. E a televisão... - apontou para o aparelho. -é a grande culpada disso. - balançou a cabeça para os lados. - Mas agora, faltam mulheres para grandes amores. Não dá para ficar abalado por uma frangotinha dessas que beija quatro na mesma noite...
- Nenhuma conseguiu roubar meu coração ainda, mas as fáceis continuam aqui, morando no lado esquerdo do bolso. - ri alto e propus uma nova partida.
- Você é sábio, rapaz! - deu uma gargalhada e tossiu. - Esse fumo ainda me mata, mas está na hora mesmo. - Deu de ombros. - Agora me diga de verdade, nunca amou?
Antes que pudesse responder, o telefone tocou. Atendi. Era Vanessa. Parecia com pressa. Informou que queria me ver e me pediu meu endereço. Não demonstrei minha preocupação ao meu amigo, que repetiu a pergunta sobre o amor.
Eu fiquei olhando a fumaça saindo pela minha boca, se dissolvendo no ar. Aquela pergunta não era nada divertida.
- Já, já amei. Mas ela foi embora... - falei com um tom grave que mudou o clima daquela conversa.
- Ah! O amor de minha Jennifer. - ele suspirou. - Ela era belíssima. Cabelos loiros sempre bem arrumados e a boca pintada para quando eu chegasse. Seus olhos azuis, grandes, vivos, poderiam me pedir o que quisesse que eu lhe daria. Era uma Ingrid Bergman. - Robert podia falar com humor das muitas mulheres de sua juventude, mas nenhuma vez deixava de citar sua falecida, e única esposa, com lágrimas nos olhos. - Filho, quando você encontrar uma grande mulher, se entregue a ela e abandone a farra das outras porque vai descobrir nela todas as mulheres do mundo.
- Será que ela anda por aí com uma placa: “Procura-se o Zachary”? - perguntei, meio descrente, arrumando as peças do tabuleiro.
Jogamos mais uma partida, quando ouvi três pancadas à porta.
Eu já sabia que era Vanessa. Atendi.
- Eles querem me matar... - falou transtornada.
- Eles quem? - perguntei e fechei a porta atrás de mim. Observei seu estado enquanto esperava a resposta.
- Acho que são agiotas para quem meu pai devia. Eles entraram em casa atirando, invadiram e...
- Calma, calma. - pedi-lhe e toquei no seu braço para que parasse de gesticular. Vanessa estava completamente gelada, como um cadáver. - Por que você está assim tão fria?
- Eu me escondi dentro de uma caixa d’água, quando eles entraram, não me viram. Socorro, Zachary, me protege. Eles levaram um monte de coisa e vão querer me levar, não posso voltar para lá...
- Calma, você está comigo agora. Vá pelos fundos e entra pela cozinha. Eu estou com visita, não quero que te vejam assim.
Fez que sim com a cabeça e seguiu como ordenei.
Entrei novamente. Minha mente começou a cruzar os dados.
Eu preciso morrer e saber que você vai cuidar dela, você vai cuidar dela...
A frase do pai de Vanessa fez sentido para mim agora. Antes de morrer, sabia que viriam capturá-la para descontar nela suas dívidas. Por isso, precisava de mim para protegê-la.
- Robert, surgiu um pequeno problema para resolver, vamos ter que deixar a sua próxima derrota para depois. - brinquei.
- Tudo bem, meu rapaz, os velhos como as crianças precisam ir para a cama cedo! - levantou-se e o acompanhei até a porta.
- Você está muito pálida ainda. - falei, quando vi Vanessa sentada à mesa da cozinha.
- Eu fiquei muito tempo na água... - disse trêmula.
- Acho que você chegou a um grau muito baixo e agora não está produzindo calor.
Busquei uma manta grossa no guarda-roupa e coloquei ao redor das suas costas.
- Pronto. - afastei seu cabelo para o lado e o tirei da bochecha. - Já é a segunda vez que te salvo. - sorri
- Eu acho que tenho sete vidas. - ela sorriu, encolhida.
- E gatos preferem leite? - perguntei.
Ela fez que sim com a cabeça e eu ri da sua doçura. Fui até a cozinha e enchi a leiteira, deixei ferver e levei junto com alguns biscoitos.
- O serviço de quarto é por fora. - brinquei e recebeu a bandeja.
- Obrigada. - bebeu o leite segurando a caneca com as duas mãos.
Pude perceber, no inclinar do rosto para dentro da caneca, que ela respirava o cheiro do leite, como se isso também fizesse parte do processo gustativo, e depois, lambia sem pudor o bigodinho branco que lhe marcava acima dos lábios. Um leve puxar dos seus olhos amendoados no canto não era defeito, mas um acento relevante em sua beleza.
- Obrigada, mais uma vez... - tocou meu braço, roçando seus dedos sobre meus pelos e passeando sobre as veias altas. Será que ela intuiu que elevava minha pressão? Espero que tenha ido pelo caminho da conclusão de que tudo se explicava pelo afã do momento e não pela minha, já inicial, paixão arrebatadora por aquele anjo despencado do céu em minha vida.
Sua mão ainda sobre o meu braço trouxe-me uma onda de calor. Agora era eu, no sentido inverso, que precisava de um bom copo de água gelada, com pedras de gelo de preferência.
Não quis que Robert a visse, pois ele saberia que era um das poucas mulheres que se podia amar para a vida toda. Certamente, iria me perseguir para saber o andamento das coisas. Mas com Vanessa, eu não queria pressa. Ela teria todo tempo do mundo para perceber-me.
As mulheres se conhecem pelos olhos. Os de Vanessa não tinham medo, receios, nem sabiam o que esperar, como se fosse a primeira vez e isso rompia, com ruidosas pancadas, o silêncio de um calabouço esquecido, no subterrâneo do meu coração, há muitos anos.
- Zachary, me leva com você? - pediu-me.
Para onde? Para o infinito em um balão? Eu levo!
- Não me pede para ir embora porque eu não quero voltar para lá. - explicou-me.
- Não vou pedir. - sorri.
- Estou com medo. Só consigo pensar neles invadindo a casa... Parece que estou vendo-os aqui... Não vou conseguir dormir.
- Claro que vai, meu anjo.
Mostrei-lhe minha cama e dormi no sofá. Quando acordou na manhã seguinte, eu já estava à mesa, lendo o jornal.
- Dormi muito... - balançou a cabeça para os lados e sentou-se. - O leite daqui dá sono, hein? Nossa! Já são nove horas! - olhou o relógio na parede.
- Bom, temos que resolver a sua vida. - suspirei. - Vamos até a sua casa. - avisei-lhe.
- Zachary, eu tenho medo...
Abri o armário da cozinha e tirei uma caixa de dentro. Abria-a e saquei meu revólver. Conferi as balas.
- Para que isso? - arregalou os olhos.
- Eu sou o seu salva vidas, se esqueceu? - pisquei o olho.
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Hellooo my girls!!!
Só eu que to sem palavras pra descrever esse momento
do Zac com a Vanessa?? Lindooos!!!
Comentem ai!!
Obrigada pelos comentários...
Até mais tarde girls!!

3 comentários:

  1. A conversa dos dois :D não só entre o Zac e a Vanessa mas o que ele teve com o Robert. Interessante.
    Posta logo.

    Beijos.

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  2. interessante mesmo a conversa de zac e seu amigo.. e coitada da vanesa ficar dentro de uma caixa d'água.. adorando essa história.. posta logo!

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