domingo, 8 de março de 2015

Será que você já anda entre meus amigos? (Vanessa)

- Por que vamos descer aqui? - perguntei, ouvindo Zachary pedir ao taxista que parasse na esquina da minha rua, bem longe de casa.
- Se fosse para descer no seu portão, eu vinha com o meu próprio carro, mas como a situação está quente, é melhor não sermos identificados por nenhuma placa. - explicou-me, sempre em voz baixa e olhando para os lados.
- Hum. - Levantei as sobrancelhas.
- Você está com a chave? - perguntou, segurando levemente o meu braço, apreensivo.
- Que chave? Eu deixei aberto e sai correndo. A porta estava arrombada.
- Genial você... - riu.
- O que queria? Eles entraram atirando, eu estava em total estado de pânico, Zachary. Queria que eu chamasse o chaveiro pra consertar a porta?
- Nessa, cala a boca, você fala demais. - pediu. - Disfarça.
Eu tinha essa mania de falar alto quando estava nervosa.
- Fique aqui, eu vou entrar na frente. - pediu.
Eu cruzei os braços e fiquei no portão de casa.
Zachary abriu a porta e sacou o revólver. Eu sentia-me como num filme de ação, só que nem um pouco ansiosa para qualquer clímax. A noite de ontem tinha batido minha cota anual de aventuras. Mas, sentia-me absolutamente segura ao seu lado.
- Pode vir. - fez sinal para eu segui-lo.
Entrei atrás e permaneci em sua retaguarda.
- Escuta. - pediu silêncio com o dedo indicador. Ouvimos um barulho na cozinha.
Zachary virou-se e impôs a arma.
Ouvi um miado de gato e o contive:
- Não, Zachary! É o gato da minha vizinha!
- Esse bairro aqui deve ter sido uma savana antes de ser habitado. - exclamou aliviado e também irritado.
- E você devia ser o motorista da carrocinha, se não fosse militar! - peguei o gatinho no colo. - Não precisa ficar com medo, ele não vai te matar... - apontei para o Zachary. - ... porque eu não vou deixar. Ele matou a minha cachorrinha, mas eu vou te proteger. - esfreguei a minha bochecha em sua cabeça.
O gato miou e Zachary revirou os olhos, tentando manter a calma comigo. Coloquei o bichano no chão, que correu para o quintal dos fundos.
- Nessa, você não vai esquecer isso nunca?! Eu levei sua cadela para ser enterrada e me disseram que foi feito tudo pra salvá-la.
- Era a minha melhor amiga! - argumentei. - Qual o nome da sua melhor amiga?
- Ai, Neeeeessa...
- Vamos, Zachary! O que diria se você soubesse que deram um tiro na sua melhor amiga, o melhor, a do coração, a maior...
- Nessa, eu não quis matá-la, ok? Só pedi pro meu soldado pular o muro e deu esse... efeito colateral.
- Como pode ser tão frio? - desdenhei. - Eu nunca vou poder te perdoar por ter matado a minha cadela.
- Tudo bem, eu vou levar anos para me recuperar disso. - ironizou. - Agora, arrume suas coisas rápido, joga tudo em uma mala e vamos sair daqui.
- Você não sabe o que é ter alguém que goste... - peguei o porta-retrato com a minha foto abraçada a Shadow.
- Nessa, você não está entendendo, eu disse: rápido! - puxou de uma só vez todas as minhas roupas do cabideiro e jogou na cama. - Anda! Eu não posso estar metido em nada errado, já estou me arriscando demais! Eu juro que vou fazer um zoológico particular na nossa futura casa, tá bom? Agora esquece esse negócio de cachorros e gatos e pega tudo o que precisa.
- Zachary, a gente não vai levar os móveis? Vai deixar tudo aqui?
- E como eu vou levar? Pôr o sofá no bolso e a geladeira na cabeça?
- Mas, foi comprado com tanto sacrifício. - reclamei.
- Tá, tá bom, Nessa, eu vou dar um jeito de buscar, agora só pegue o que é essencial. - continuou olhando apreensivo pela janela.
- Acho que é isso. - sentei em cima da mala e a fechei com um certo esforço.
Voltamos para a casa de Zachary que saiu por um tempo.
Suspirei, sentada no sofá, totalmente entediada. Zachary tinha me proibido de sair, disse que não era bom eu dar o "ar da graça" por ali, não gostava de levantar fofocas na vizinhança.
Levantei-me e fui até o móvel da televisão, havia coleções inteiras de filmes.
- Nossa! Um cinéfilo. - franzi a testa e não tirei nada do lugar, vai que aquilo ali tinha alguma ordem.
Enfiei as mãos no bolso e virei-me. Uma porta chamou a minha atenção ao lado da do quarto, no corredor. Mordi a ponta do polegar.
Que mal tinha eu fuxicar um pouquinho? Zachary não estava ali mesmo! Girei a maçaneta e coloquei a cabeça para dentro.
- Uau! - meus olhos passearam por todos os cantos e minha boca se entreabriu naturalmente. Senti-me a própria Lucy (do filme As Crônicas de Nárnia) descobrindo uma passagem secreta muito especial no guarda-roupa do velho professor, que dava acesso a um misterioso mundo.
Se eu tinha ficado admirada com a quantidade de filmes, agora sim, estava estupefata. Zachary enchera todo um quarto com fileiras de livros organizados nas prateleiras. Um modesto sofá forrado com uma capa amarela de dois lugares ficava abaixo da janela. No lado oposto, uma mesa de madeira com um laptop fechado. E no chão um tapete vinho, cobrindo o assoalho de madeira.
Os quadros na parede eram referentes aos seus estudos e trabalho como militar. Medalhas, diplomas, condecorações e fotos com grupos de amigos.
Mas se tudo isso já havia mudado minha concepção sobre Zachary, vendo-o agora como um homem culto, maior foi minha surpresa com um objeto no canto do pequeno escritório.
- Não vai me dizer que você toca? - ri baixinho e olhei de perto o violão de madeira, escorado em um apoio.
- Sim, eu toco. - ouvi uma voz atrás de mim e tomei um susto tremendo, pega com a boca na botija.
- Ai! - gritei e pus a mão no peito. - Quer me matar do coração, Zachary?!
- Posso saber o que a mocinha está fazendo aqui? - perguntou.
- É que... eu... - abaixei os olhos. - Desculpa... - pus as duas mãos para trás e girei a ponta do pé no chão para os lados. - Eu estava sem nada para fazer...
- Tem uma visita para você na sala. - apontou com o polegar para trás, vi que não estava mais interessado nas minhas explicações.
- Para mim? - arregalei os olhos. - Quem é?
Eu andei em direção a sala, sem esperar por sua resposta, eu era curiosa demais. Ora! Não tinha visto nada. Voltei para o escritório.
- Isso é alguma brincadeira comigo, Zachary? - pus as mãos na cintura. - Não tem ninguém lá!
Ele, que já estava abrindo seu laptop, virou-se para o lado e me olhou.
- Mas eu deixei ele ali. - passou na minha frente e foi para o centro da sala, próximo a mesinha de centro.
Agachou-se, mas não pude entender o que fazia, pois o sofá tampava a minha visão.
Aproximei-me mais.
- Pronto, agora pode dar o nome que quiser. - mostrou-me um filhote de cachorro.
- Que isso?
- Um pequeno dinossauro, achei um ovo no meu quintal que deve ter eclodido ontem, depois de séculos... Dãã, um cachorro. O meu amigo me deu, na verdade, de tanto você me aporrinhar, eu pedi para ele um dos filhotes.
- Você acha que a minha Shadow pode ser substituída?
- Nessa... - levou a mão à testa, balançou a cabeça para o lado e suspirou. Eu senti que o tirava facilmente do sério. - ... Eu acho que você está sendo muito ingrata. - apontou para mim com a mão que segurava o bichinho que parecia uma bola de pelo dentro do seu punho fechado.
Quase gritei para que Zachary parasse de girar o pobrezinho no ar, como se fosse um objeto de plástico, enquanto gesticulava. Mas não queria dar o braço a torcer.
- Ok, você não quer? Tudo bem, joga fora. - abriu a porta da rua e colocou o bicho no chão e fechou a porta outra vez.
- O que você fez? - olhei-o horrorizada, quando passou por mim.
- Ora, você não quis?! Então, alguém vai passar e pegar, ou ele vai ser atropelado por um carro e... Não venha me culpar por essa morte também, a culpa será toda sua! - levantou as mãos no ar, em estado de rendição e voltou para o escritório.
Abri a porta e peguei o bichinho.
- Posso dar mesmo o nome que eu quiser? - perguntei, com a cabeça na porta do escritório.
- Pode, qualquer um. - respondeu maquinalmente, enquanto digitava alguma coisa no teclado.
- Tá bom, ele vai se chamar Jachary.
- Quê? - virou-se para mim.
- Ora, você disse que podia ser o que eu quisesse.
- Não o meu nome no cachorro.
- Quem disse que é o seu nome? É com “J”, não é com “Z”.
Ele ficou olhando para mim absorto, acho que meio perplexo com minha imaginação. Eu sorri me divertindo.
- Zachary, a gente tem que comprar uma casinha para ele, comprar comida, uma mamadeira, leite, remédios, e levar no veterinário. Ah! Temos também que comprar uma coleirinha para você passear com ele.
- Que isso? É um cachorro ou uma madame?
- Você acha que é simples ter um bicho? Foram anos de amor pela Shadow...
- Linda, linda. - levantou-se e segurou o meu rosto com as duas mãos. - Presta atenção, eu estou com uns probleminhas para resolver, você pega o cachorrinho, dá qualquer coisa para ele comer e...
- Zachary, não é qualquer coisa! Se o cachorro comer comida de gente, ele pode ficar doente e... Fede para caramba as...
- Quer dinheiro? Deve ter algum petshop por aqui.
- Você disse para eu não sair. - lembrei-o.
- É. - e conteve a mão no bolso.
- Zachary, cachorro não é gente para comer comida.
- Mas você trata ele como se fosse gente.
- É diferente! Zachary, você não entende nada! - balancei a cabeça para os lados, olha para quem eu estava falando isso, para o homem que já havia lido todos aqueles livros. Mas de cachorro eu entendia.
- Ok, eu me rendo. O que quer que eu faça?! - perguntou.
- Nada, eu dou meu jeito.
- Ótimo. - voltou ao trabalho.
Fui até a cozinha e procurei o leite. Jachary ajudou-me a esquecer das coisas que aconteceram nos últimos dias. Dessa maneira eu tinha companhia.
À noite, porém, não quis dormir, chorou sem parar.
- Onde é o botão que desliga esse bicho? - Zachary apareceu na cozinha e viu que eu também estava ali, sentada no chão, junto à caixa do cachorrinho.
- Você não vai matar ele não, né?! - perguntei, pegando-o no colo e abraçando-o.
- Não, minha querida, eu não sou um assassino da carrocinha. - agachou-se.
- Olha, ele parou... - falei.
Zachary ficou nos olhando abraçados e decifrou o segredo.
- São as batidas do seu coração. Ele está lembrando das batidas do coração da mãe. Já vi isso em um filme. - ele levantou-se e foi até seu quarto buscar um despertador.
- Que isso? - perguntei, vendo-o colocar dentro da caixa.
- É para simular as batidas, o barulhinho do tic tac. - colocou Jachary no seu lugar e fez um carinho na sua cabeça. - Pronto! - sorriu. - Agora vamos dormir. Por que amanhã vamos nos mudar.
- Zachary... -chamei-o. Ele virou-se para mim e perguntou o que era. - Como vai ser? - abaixei a cabeça. - Preciso continuar estudando.
Ele me sorriu complacente.
- Não se preocupe com o amanhã. Não está dando tudo certo?
Eu sorri e concordei. Ele estava se esforçando para me agradar.
- Não vai dormir? - perguntei, vendo-o entrar no escritório.
- Não consigo. - entrou. - Tenho insônia.
- Posso? - perguntei, contendo a mão na porta.
- Claro. - deixou eu entrar. Sentou-se no sofá e eu fiquei escorada na mesa, de frente para ele.
- Eu também sei tocar... - contei-lhe timidamente.
- Sabe? - parou de mexer no caderno de cifras e ofereceu o violão.
- Não! Eu não...
- Já era! Já disse, então...- puxou-me pela mão e eu sentei no sofá apreensiva.
- Zachary eu não toco as coisas que você gosta, não é nada erudito...
- Toca atirei o pau no gato. - ordenou e se escorou na mesa, mudando de posto comigo.
Respirei fundo e ri nervosa. Cruzei as pernas, ajeitei a saia jeans e bati com a bota no chão para marcar o compasso.
- Uhhuhuuu... - fiz o som com um biquinho nos lábios.
Fechei os olhos para me concentrar.
- Para começar um beijo... - cantei com a voz bem doce e sussurrante uma canção da Wanessa Camargo. - E ele vai pra sempre me amar / É assim que vai ser / Sei que ele está por aí / Esperando eu aparecer/ Louco pra me conhecer (iê,iê,iê). O seu nome eu não sei/ Eu me lembro que eu sonhei/ E acordei pensando em você/ Eu nem sei o que é paixão/ Perguntei pro coração/ E ele disse que é pra eu ter calma/ Um dia virá meu primeiro amor.
Abri os olhos mais confiante. Inclinei o rosto para o lado e sorri:
- Escrevi no meu diário/ Meus segredos só pra você/ Só você pode ler/ Será que você já anda/ Entre os meus amigos e eu nem vi/ Que você já está aqui (Iê,iê,iê). O seu nome eu não sei/ Eu me lembro que eu sonhei/ E acordei pensando em você/ Eu nem sei o que é paixão/ Perguntei pro coração/ E ele disse que é pra eu ter calma/ Um dia virá meu primeiro amor. (Ohh...) Sei que você está aí em algum lugar. (Ohh...) Estarei bem aqui pra quando você chegar. O seu nome eu não sei/ Eu me lembro que eu sonhei/ E acordei pensando em você/ Eu nem sei o que é paixão/ Perguntei pro coração/ E ele disse que é pra eu ter calma/ Um dia virá meu primeiro amor. Um dia virá.../Para começar um beijo...
Terminei de cantar e parei com os dedos nas cordas.
- Viu? Não é linda a música? É de garotas...
Zachary não disse nada, estava sério, absolutamente compenetrado.
- Desculpe... Acho que tomei o seu lugar. O seu tempo... - levantei-me e me precipitei para sair, mas segurou o meu braço, não ameacei olhá-lo.
- Posso te ensinar mais amanhã, se quiser... - ofereceu.
Abaixei a cabeça e fui direto para o quarto, sem nada dizer, estava envergonhada, mas com o coração estranhamente batendo forte. Não entendi por quê.
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Aqui eu de volta!!!
Esse Zac é o melhor hein!?
E essa criatividade da Vanessa no nome do cachorrinho??
É parece que o Zac tem sim pelo menos um pouquinho de carinho
pelo Jachary neh!? kkkkk
E essa canção ai??? Morrendo!!
Para quem quiser ouvir a música aqui está o link: Música da Wanessa
Comentem ai!!
Obrigada pelos comentários
E até mais girls!!

Um comentário:

  1. ownt que fofa a Vanessa,hehe
    amei o capítulo ♥♥♥
    rarara,adorei o nome do Jachary,kkkk
    posta mais,kisses

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