segunda-feira, 9 de março de 2015

Uma nova vida para nós... dois (Zachary)

Subi os quatro degraus da minha casa e, antes de abrir a porta, o carregador da empresa de mudança abriu-a do outro lado.
- E aí? - fiz sinal de cumprimento e dei passagem para os dois homens passarem com o sofá.
Encontrei Vanessa sentada no chão da cozinha, colocando as louças dentro de uma caixa de papelão. Jachary ao seu lado brincava com a barra da sua saia.
- Como estamos aqui? - perguntei.
- Bem. - respondeu. - O que é isso? - perguntou e se levantou. Jachary, que se prendera no pano da sua saia, a uma dada altura caiu e deu um latido.
- É um peixe. - olhei para o pequeno aquário em minhas mãos.
- Jura, pensei que fosse um dinossauro! - ironizou ela.
- Rá-rá-rá! - forcei uma risada e cerrei os olhos. - Muito engraçadinha.
- É para fazer companhia com o meu dinossauro? Ele saiu do ovo recentemente... - ela não perdia a chance de brincar comigo. Tomou o aquário da minha mão. - Qual é o nome dele?
- Nunca dei um nome para ele. Estava lá na minha sala do quartel. Ele foi esquecido pelo comandante anterior.
- Você nem tem nome e foi esquecido... - ela conversou com o peixe laranja do aquário. - E ainda vive aí solitário...
- Vamos levá-lo no carro conosco. - eu disse-lhe. - Agora preciso tirar essa farda e comer. Sobrou algo aqui que não foi empacotado ainda.
- Tem a ração do Jachary.
- Você hoje está tão cheia de gracinhas... - encostei o polegar no seu nariz pequeno e pontudo.
- Estou com o pressentimento de que tudo vai dar certo... - colocou o cabelo atrás da orelha e encolheu os ombros.
- Que bom. Será uma vida nova para nós dois. - eu disse e percebi que havia uma dupla possibilidade de interpretação do que eu falara. Tanto poderia ser “os dois felizes separadamente” ou “os dois juntos”.
- Me dá um frio na barriga, um certo medo... - riu, agitando a cabeça e as mãos. Sempre fazia isso, quando estava muito ansiosa com algo.
- Isso é bom, é o que dá sentido a vida... Quando as nossas primeiras vezes começam com um friozinho. - sorri-lhe. - Imagino que nunca deve ter se mudado.
- Nunca fiz tantas coisas... - confessou sem pensar e, de vergonha, se abaixou para voltar à arrumação.
- Fala para o Jachary deixar um pouco de ração para mim! - pedi, enquanto caminhava para o banheiro.
(...)
A viagem foi longa e Vanessa me deu um bom trabalho. Ficou enjoada, não conseguia dormir, enfim, se eu tivesse viajado sozinho teria me fadigado menos.
Mas um fato marcou o nosso trajeto: a morte do peixe sem nome. Vanessa carregou o bicho em seu colo todo o tempo. Quando paramos para almoçar, eu disse que era melhor trazê-lo, pois poderia cozinhar dentro do carro fechado e quente. Ao sair, ela pisou em falso no paralelepípedo e o aquário se espatifou no chão. Dava um cardume inteiro em suas mãos para que ela repetisse inúmeras vezes à cara de desolação que fez misturada com medo de eu brigar com ela.
- Tudo bem... Eu não gostava dele tanto quanto você gostava da Shadow. - eu falei-lhe, vendo o peixe se debater a última vez no chão quente.
- Não foi com intenção, Zachary. - defendeu-se.
- Eu sei que não. - sorri-lhe.
- Você está tão sério. - comentou, quando já estávamos sentados comendo. - Foi por causa do peixe?
- Não. Também. - enrolei o macarrão no garfo. - Eu fiquei pensando em como na vida há pessoas significativas, que quando perdemos é ruim... - continuei girando o garfo em torno do macarrão em um processo sem fim. - E outras não significam nada e podemos deixá-las para trás.
- A quem você se refere, Zachary? - perguntou-me.
- Deixa para lá. - enfiei finalmente o macarrão na boca.
- Quando eu estava colocando os livros na caixa... Eu vi um porta-retrato de uma senhora na sua mesa... É sua mãe?
- Sim. - ri.
- Por que você riu?
- Ela é uma mulher... Hum... Supermoderna. Moderninha demais. - disse-lhe. - Ainda bem que está lá e eu cá. Ela iria me fazer eu tirar a cueca aqui para ver se está limpa, não tem pudores.
- Ia ser divertido.
- Tirar a cueca aqui?
- Não... - riu. - Conhecer sua mãe!
- Você vai se arrepender do que está dizendo, mocinha! - avisei-lhe apontando o dedo indicador que segurava o garfo.
Vanessa sorriu e seus lábios rosados esticaram até o máximo que a elasticidade de sua boca permitia, emoldurados pelas bochechas rosadas. Suas sobrancelhas finas e castanhas se uniam, quando não entendiam o que eu dizia.
Assim eu ia escrevendo mentalmente um livro sobre os códigos de Vanessa.
Assim que chegamos, só tínhamos caixas espalhadas por toda parte da casa espaçosa. Fazia um intenso calor na cidade do Rio de Janeiro e nem a chuva que começou a cair melhorou a sensação térmica, pelo contrário, só fez ficar mais abafado.
Forramos os dois colchões e deitamos, cansados.
- Zachary...
- Hum. - virei-me de lado e olhei-a. O vento que entrou pela janela arremessou um facho de fios do seu cabelo castanho para frente.
- E nossa aula de violão, esqueceu? - perguntou, indo procurar onde estava o instrumento.
- Agora?! - perguntei, virando o rosto para o outro lado, para segui-la com os olhos.
- Tudo bem, eu vou deixar você faltar à aula, mas saiba que isso não é muito bom para a imagem de um professor. - falou sério, para dramatizar suas brincadeiras comigo.
Sentou-se no colchão novamente e suas pernas cruzadas ficaram na altura dos meus olhos. Os finos pelos eram dourados e se perdiam na pele branca, perfeitamente ajustado a sua delicadeza. Será que ela os descolorava ou era da ordem da sua própria natureza?
- Você não vai tocar Wanessa Camargo para eu dormir não, né? - perguntei, com a voz meio abafada pelo travesseiro.
Ela parou uns segundos o dedo nas cordas e só levantou os olhos para mim. Não me respondeu.
- Por que você toma remédio para dormir? - perguntou sem rodeios.
- Porque um dia... Uma menina como você jogou um feitiço perverso que tirou o meu sono para sempre... - falei-lhe em tom de conto de fadas para deixar em aberto a veracidade daquela versão.
- E o que se faz para quebrar o feitiço?
- ... - dei de ombros. - Tomar um bom sonífero?
- ...Você toma remédios para depressão. - ela fez uma leve careta.
- Como sabe?
- Meu pai tinha depressão.
- E você anda revirando as minhas coisas!
- Alguém tinha que colocar aquilo em uma caixa!
- Nem todas as pessoas são perfeitamente sãs.
- Eu sou.
- Tem certeza? - perguntei.
- Como você faz isso?
- Isso o quê?
- Consegue sempre armar uma armadilha na sua argumentação para eu ficar presa pelo pé, de cabeça para baixo.
Eu ri da ideia, imaginei-a de cabeça para baixo.
- São os anos. Mas, às vezes, eles não servem para nada.
- Como, por exemplo...? - apoiou o cotovelo no joelho direito flexionado.
Quando você me olha desse jeito e eu tenho vontade de te beijar, mesmo sabendo com minha experiência que não devo me encantar por garotinhas como você, porque já passei da idade, e nem assim aprendo.
- Você não disse que ia tocar.
- Eu não disse. - corrigiu.
- Quem te ensinou a tocar? - perguntei.
- Fiz um cursinho, na igreja. - respondeu.
- Legal. Eu aprendi com um sargento da banda do quartel que me deu umas aulas.
- Eu tinha um violão, mas fui assaltada e me levaram. Não sei se o ladrão gostou muito, porque não era um dos melhores.
Rimos juntos.
- O que você gosta de cantar? - usei o verbo “cantar”, porque achei que era mais apropriado para o que ela realmente gostava de fazer. O violão para mim era o fim maior, gostava de ouvir as notas. Vanessa ia além delas, era o próprio corpo da música.
- Como é aquela música? “I can’t take my eyes of you”. Como começa?... - pôs a mão na testa.
- Deixa eu ver se lembro. - sentei-me ao seu lado e peguei o violão. - And so it is/ Just like you said it would be/ Life goes easy on me/ Most of the time/ And so it is/ The shorter story/ No love, no glory/No hero in her sky/ I can`t take my eyes off of you/ I can`t take my eyes off you…”
- Não era essa. - ela falou baixinho.
- Não? - parei. - É daquele filme Closer, The Blowers Daughter, quem canta é o Damien Rice.
- Ãnh-ãnh. - balançou a cabeça para os lados, sorrindo, percebi que tínhamos entrado na zona do desafio.
- Que tal essa... “You`re just too good to be true / Can`t take my eyes off of you/ You`d be like heaven to touch/ I wanna hold you so much/ At long last love has arrived/ And I thank God I`m alive/ You`re just too good to be true/ Can`t take my eyes off of you…”
Vanessa balançou a cabeça em negativa outra vez e jogou-a para trás, rindo.
- Como não? É daquele filme “As dez coisas que eu odeio em você”, se eu não me engano a música é do Andy Williams. - expliquei-lhe.
- Você não vai saber, Zachary, desiste!
- Ok! - devolvi o violão, meio frustrado, eu jurava que era aquela, poxa, vinha de um filme adolescente!
- É assim... - ela mordeu o lábio faceira.
Cruzei os braços e esperei que ela me surpreendesse.
- “Never know what you`re gonna feel, oh/ Never see it comin` suddenly
it`s real / Oh, never even crossed my mind, no/ That I would ever end up here tonight/ All things change/ When you don`t expect them to/ No one knows / What the future`s gonna do/ I never even noticed /That you`ve been there all along.
Eu levantei as sobrancelhas e meus braços se descruzaram lentamente. Os som das notas rápidas alegram todo o ambiente.
- Que música é essa?! - perguntei.
- É de um filme...
- De um filme?! Qual?! - insisti.
- Zachary, você não conhece, já disse. - deixou o violão de lado, no chão e suspirou. A luz que entrava pela janela iluminou a lateral do seu rosto.
- Como não?...
- Não faz o seu tipo. - ela deitou de bruços. - Desiste.
- Ok, eu vou dormir curioso?
- Zachary... desiste.
- Neeessa... - voltei para meu colchão e deitei também.
- High School Musical. - disse, quando eu já havia desistido de insistir. Vanessa sempre me dava de bom agrado o que eu queria, quando eu já não mostrava mais interesse.
Claro! Como não pude pensar nisso? Óbvio que era um filme fora do meu repertório. Mas, não, do de Vanessa. Seu quarto mostrava que aquele realmente era seu território. As paredes repletas de pôsteres de artistas do mundo teen e revistas de adolescentes empilhavam uma prateleira inteira do armário.
Ela dormiu e eu fiquei com as últimas frases daquela música na cabeça:
Você nunca sabe o que vai sentir, oh/ Você nunca vê chegando e de repente é real/ Oh, nem passou pela minha cabeça, não/ Que eu estaria aqui esta noite/ Todas as coisas mudam/Quando você menos espera/ ninguém sabe/ que o futuro vai fazer/ Eu nunca nem reparei/ Que você esteve este tempo todo aqui.
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Oiiii pessoal!!!
Tadinho do peixinho!! Essa fic gosta de matar os bichinhos neh!?
Sobre essa parte da música de HSM eu me surpreendi vendo na fic original!!
Meu olhinhos brilharam ♥___♥
Para quem quiser rever a música é só clicar aqui.
Comentem ai!!
Obrigada pelos comentários
E até mais girls!!

3 comentários:

  1. High School Musical haha! E a fic é de Zanessa! haha! Acho que ninguém entendeu porque estou rindo mas enfim...vou rindo sozinha.
    Coitado do peixe. Nessa fic é só assassinos!
    Posta logo.

    Beijos.

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  2. aiw que lindo *-*
    saudades de HSM ♥♥♥
    perfeito esse capítulo,tô começando a sentir um climinha entre esses dois,rsrs

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  3. coitado do peixe kkkkk
    mais o capítulo ta maravilhos...
    posta mais

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