domingo, 15 de março de 2015

Ciúme (Zachary)

Eu peguei o telefone e caminhei pela sala até onde o longo fio alcançava. Ninguém atendia lá em casa.
- Droga! - desliguei e suspirei.
Liguei mais uma vez, movido pela esperança de que, da última vez, Vanessa tivesse corrido para atender e ele parara de chamar. Quantas vezes isso não acontecera comigo? Mas, nada.
Bati com o sapato no chão, pensei mais um pouco. Estava aflito.
Hoje de manhã disse a ela que iria levar um casal de amigos para jantar conosco e pedi que organizasse tudo. Ela disse “deixa comigo”, enfiou uma maçã na mochila e foi para o colégio.
Não sabia o quanto tinha levado à sério o meu pedido. Por isso, eu agora ligava incessantemente, a fim de ratificar a importância daquele encontro. Não queria que servisse miojo. Michael era um grande amigo, merecia ser tão bem acolhido quanto eu sempre fui em sua casa.
- Alô? - ouvi a voz totalmente descomprometida daquela criaturinha do outro lado da linha.
- Onde se meteu, Nessa?! - perguntei. - Estou te...
Alguém batia na porta da minha sala.
- Só um momento. - pedi-lhe para esperar na linha.
O soldado me deu os papéis que eu havia solicitado.
- Nessa, te liguei o dia todo. - falei, enquanto equilibrava o fone no ouvido e folheava aqueles arquivos. - Você não se esqueceu que hoje é o jantar...
- Não, Zacha-ry, eu, nããão esqueci. - interrompeu-me.
- Hum. Tudo bem.- fiz uma leitura dinâmica no texto que estava em minhas mãos enquanto falava com ela. - Fiquei preocupado, afinal...
- Zac, você sempre pede para eu confiar em você, certo? Hoje, eu posso pedir para você confiar em mim?
Eu suspirei.
- Pode.
- Ai, que ótimo! - ela parecia andar pela casa com o telefone sem fio enquanto falava, pois sua voz oscilava e saia um pouco ofegante.
- Nessa, eu não vou poder chegar cedo como prometi... - sentei-me diante do computador e abri uma apresentação de PowerPoint que estava preparando para uma palestra.
- Jura? Eu pensei que ia me dizer que descobriram a cura para o câncer... - ela brincou, adorava misturar ironia no meio de uma conversa em que eu estava claramente preocupado. - Você nunca consegue cumprir esse tipo de promessa, liga quatro ou cinco vezes para dizer que vai se atrasar mais uma hora.
- Desculpe, eu sei que nos últimos dias eu estou mergulhado em...
- Zachary, faz o seu serviço aí tranquilamente e confia em mim. Isso não é confiar, hein?!
- Claro.
Ela conseguia fazer sentir um pateta ginasial.
- Eu vou desligar porque estou ocupada. - disse. - À noite, nos vemos.
- Tem certeza que consegue? O dinheiro que deixei deu?
- Zachary, isso não é confiar! - repetiu.
- Tudo bem, tudo bem. Eu já entendi.
- Eles são o quê, afinal, para você estar assim tão preocupado: o presidente e a primeira dama?
- São amigos apenas.
Eu não tinha certeza se Vanessa estava me levando à sério. O processo de adquirir confiança em uma pessoa é semelhante a uma criança que está em cima de uma árvore e seu pai lhe estica os braços e diz: “Pula”. A criança confia e se atira de qualquer altura, porque sabe que ele não vai deixá-la cair. Uma hora, somos a criança que fecha os olhos e se atira e, em outra, somos o pai que transmite a confiança. Eu, hoje, era a criança.
Confiança é um dos valores que mais está perdido no mundo. Exatamente por isso tanto se fala sobre ela. É o tênis de confiança, o carro de confiança, o aspirador de pó de confiança, o biscoito de confiança, o refrigerante... Tudo leva o valor agregado “confiança” pelas campanhas publicitárias. Isso é um reflexo da própria desconfiança na sociedade.
Pais e filhos, amigos, esposa e marido, patrões e empregados precisam de provas para tudo, porque as palavras já não bastam, estão esvaziadas pelas possibilidades de lesão, falcatruas e trapaças. Impossível não ser contaminado por essa onda também.
Só que eu não tinha escolha. Se eu quisesse ter tempo para finalizar a elaboração daquele trabalho, precisaria ficar mais um pouco no quartel. Quando acabei, meu relógio de pulso marcava nove horas e eu estava exausto.
Coloquei meu laptop dentro da pasta, recolhi alguns papéis importantes, peguei a chave do carro e de casa... Acho que não esqueci nada. Apaguei a luz da sala e tranquei a porta. Os soldados prestaram continência por onde eu passava e dei boa noite aos que ficaram.
Era gostosa aquela sensação de saber que pessoas me esperavam em casa. Sem dúvida, essa está sendo a melhor fase da minha vida. Vanessa fora um vagalume vindo iluminar a noite. Um pequeno ponto de luz clareando a rotina de trabalho, campos e viagens.
Estacionei o carro, andei até a varanda dos fundos, fiz um carinho na cabeça de Jachary, que brincava com sua bola vermelha de borracha na varanda, e abri a porta da cozinha.
Vanessa havia acabado de chegar ali e assustou-se. Levou a mão ao peito e respirou fundo.
- Pensei que ia dormir no sofá da sua sala. - sorriu e colocou os dois polegares no bolso de trás da calça jeans.
- Não é muito confortável.
Ouvi o som de música vindo da sala. Era um dos meus cds que ela colocara para tocar.
- Eles já chegaram? - perguntei.
- Sim, há meia hora. Eu expliquei que você ia demorar. Ficamos conversando.
- Vocês?
- É, nós. Falamos, incrivelmente, a mesma língua.
É que eu não conseguia ver tantos assuntos em comum entre eles.
- A esposa dele é muito divertida e falamos bastante sobre o bebê.
- Ah! Imagino. O Michael já mencionou o guia de pais?
- Parou no primeiro volume quando eu saí de lá. - Vanessa riu. - Com fome?
- Muita! Comeria um mamute!!!
- Uau, que guloso! - ela se aproximou-se para abrir a porta do forno e eu fiquei na sua frente. Tentei ir para o outro lado, mas ela fez o mesmo e ficamos assim, esbarrando-nos.
Vanessa me pegou pelos dois braços e girou-me. Assim, eu fiquei na frente da porta do corredor e ela, próxima ao fogão. Rimos e, por alguns segundos a mais, ela não soltou meus braços e eu, com as minhas mãos, segurei os seus também.
Ela estava diferente: sandália alta, blusa branca e um delicioso perfume. Podia sentir o cheiro de xampu do seu cabelo ainda úmido. Agora, eu tinha plenamente confiança nela e ela, em mim.
- Deixa eu ver! - estiquei o pescoço para olhar o que estava preparando.
- É uma lasanha.
- Amo lasanha! - senti minha boca salivar só com o cheiro. - Não sabia que fazia isso...
- Bom... - ela fechou o forno novamente e me comunicou que demoraria mais alguns minutos. - ... Eu entrei na Internet e pesquisei uma boa receita de lasanha. Também aproveitei a época de morangos e comprei alguns para uma sobremesa e servi um drink...
- Que também achou na Internet? - completei.
- É, eu precisava me virar e buscar o Know How desses encontros. - ela explicou-se.
- Você é incrível! - elogiei.
- É, mas os “incríveis” não podem ficar aqui na cozinha. Vamos para lá. - chamou-me.
- Olha só, agora o casal está completo! - Monique, a esposa de Michael, cumprimentou-me animadamente. Pelo visto, meu amigo não lhe contara o que havia de fato entre Vanessa e eu.
Vanessa sentou-se ao meu lado no sofá e perguntou-me baixinho se eu não iria tirar a farda e tomar banho.
- Eu vou, deixa só o corpo esfriar. Estou suado. - falei-lhe e ficamos naquela conversinha íntima até que Monique intrometeu-se e elogiou a recepção de Vanessa. - É, ela aprendeu comigo. - pisquei o olho.
- Ãn-hãn. - Vanessa colocou sua mão sobre a minha perna. - Se dependesse dele, vocês comeriam pipoca de micro-ondas. - falou.
- Ela não quer revelar os segredos, prefere ficar com a coroa de louros só para ela! Egoísta... - entrei na brincadeira e todos rimos mais uma vez. - Vocês me dão licença, então, que eu vou tomar um banho e acho que a lasanha já está quase pronta, né, Nessa?
- É sim. - ela levantou-se comigo.
Ao voltar para a mesa, encontrei-os já sentados. Os pratos estavam organizados e muito bem dispostos. Onde ela aprendera aquilo? Ah! Já sei onde: na Internet!
- Agora que o chefe da casa chegou, podemos nos servir. - Vanessa ofereceu-me o primeiro pedaço. -Zac, comprei o queijo ralado que você gosta. - ela mostrou o pote. - Ele detesta aquele queijo ralado convencional. - explicou agora para todos. - É igual criança, a gente tem que fazer as vontades, só come desse, ralado na hora. - balançou a cabeça para os lados.
- Ela está fazendo um estudo sobre mim. Depois, os cientistas vão colocar o meu cérebro no formol e pesquisar como eu aturei essa mulher... - acrescentei maionese e mais molho de tomate ao meu prato.
- Vocês dois são muito divertidos. - Monique comentou e serviu-se.
- Ele brinca assim, Monique, mas não vive sem mim, sabe? Uma noite dessas, estava euzinha dormindo, bem tranquila, quando ouvi aquele xipchisxichi... Um murmurinho esquisito... Aí eu abri o olho para ver o que era... - Vanessa fez uma voz de suspense e até eu me interessei para saber onde ela queria chegar. - ... Eis que olho para esse aqui... - apontou para mim. - ... ajoelhado em um punhado de milho, rezando: “Senhor, obrigado, por esta mulher fenomenal, que eu não mereço”...
Todos rimos e Michael deu uma gargalhada sonora que ecoou pela sala. Até Jachary latiu.
O clima familiar estava delicioso e a presença de Vanessa ao meu lado trazia-me uma grande alegria ao coração. A lasanha, nem preciso dizer, divina. O cheiro da carne, o queijo derretido esticando em fios... Eu salivava a cada garfada.
O telefone tocou na mesa de canto, próxima ao sofá.
- Deixa que eu atendo. - adiantei-me.
- Deve ser do quartel... - Vanessa disse.
- Ah! Eu sei como são essas coisas, menina... - Monique identificou-se.
Peguei o fone e falei em um tom mais baixo que a conversa deles.
- Alô? - atendi.
- Alô, é da casa da Vanessa? - perguntou uma voz masculina.
- Quem fala?
- Eu gostaria de falar com ela...
- Quem está falando? - disse pausadamente.
- Ah, é o Alex. Fala para ela que eu estava no aniversário dela, ela vai saber... O senhor é o pai dela?
Eu quase mandei ele enfiar o “senhor é o pai” onde ele quisesse, mas me controlei.
- Não, sou o... - contive minha raiva. Eu não tinha esse direito de estender aquela farsa para a vida pessoal de Vanessa. E se ela estivesse começando alguma coisa com aquele garoto? - Espere um momento, vou ver se ela está.
- Tudo bem, eu espero.
- Nessa, é o Alex. - comuniquei-lhe.
Ela parou de conversar com Monique e virou o rosto para mim. Pensou por alguns segundos e decidiu levantar-se para atender. Como podia ter o descaramento, a ousadia, a cara lavada, a...
- Obrigada. - pegou o fone da minha mão e eu ainda fiquei ali parado ao seu lado. - Zac, busca para mim o suco de maracujá na geladeira? A Monique não bebe refrigerante. - pediu-me, abafando a voz com a mão no fone.
Eu agradeci por ter que ir até a cozinha, não queria que eles percebessem o quanto eu estava afetado por aquele telefonema.
Abri a porta da geladeira, olhei para a travessa de sobremesa e me esqueci do que tinha vindo buscar. A fumaça branca e fria começou a congelar as minhas pernas e eu fiquei ali, estático.
Quando a gente ama alguém, quer o bem dessa pessoa acima de tudo. Mas, a força desse sentimento pode elevar o zelo ao exagero e não aceitar que outras solicitem sua atenção. Interessante como a origem da palavra ciúme remete ao “zelo”. Ciúme em latim, zelumem e em grego, zelus.
Marcel Proust já dizia que: “para aquela que é objeto do ciúme, ele passa a ser considerado como desconfiança injuriosa e, por isso, uma autorização a enganar o ciumento”.
Todas as promessas de confianças, hoje à tarde, estavam manchadas por aquele telefonema. Os dois juntos fizeram o quê nas minhas costas? Se beijaram sob algum pé de árvore? Comprimiram-se no muro do colégio? Ou procuraram alguma sala vazia para livrarem-se da impulsão de seus corpos? Agora ali, sobre o meu nariz, na minha casa, trocavam risos ao telefone!
O ciúme, quando nos turva a vista, cria fantasmas, vozes, dois corpos físicos agarrando-se bem ali, no espaço da loucura. Muitas vezes, são só isso: delírios que nunca virão a ser mais que alucinações em nossas mentes.
Eu não podia confiar em Vanessa, pois nosso laço de amor não existia concretamente. Se havia, era manifesto em potencial, na virtualidade. Escondido e incluso em um olhar, um afago, um arfar incontrolado de seus seios. Todos esses sinais ainda incógnitos.
- Zac? - ouvi a voz de Vanessa atrás de mim. - Não encontrou o suco? - ela afastou meu corpo para o lado para pegar a jarra. - Tudo bem?
- Claro. - respondi secamente e segui atrás dela.
Sentamos novamente à mesa e eu olhei para a minha lasanha e depois, para Vanessa. Como ela conseguia comer? Disfarçava muito bem, pudera...
Depois daquele telefonema, eu era um homem embrulhado no medo.
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Oiiiiiiii :D
E essas brincadeiras entre o Zac e Vanessa ai!? Lindoos!!!
Ai Deus... O Zac com ciúmeees *___*
O que será que a Vanessa e o Alex conversaram hein!?
Comentem ai!!
Obrigada pelos comentários
E até mais girls!!

2 comentários:

  1. será que a Vanessa não percebeu que o Zac ficou com ciúmes dela não???
    é lerda mesmo,kkkk
    espero ansiosamente pelo capítulo em que os dois fiquem juntos,hehe
    posta mais hoje,kisses

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  2. o que será que o alex queria?
    também espero ansiosamente pro capítulo em que o zac e a vanessa fiquem juntos...
    posta mais hoje

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