sábado, 14 de março de 2015

Surpresa (Vanessa)

Quando cheguei à casa da Ashley, pensei que iríamos apenas comer pipoca, ver uns vídeos e nos divertimos. Nada de livros, nem estudo por um dia.
Era meu aniversário e eu só queria ficar de bobeira com minha amiga. Mas qual não foi a minha surpresa! Quando chegamos no fundo da casa e vi os meus amigos do colégio ali, na casa da Ashley.
- Parabéns para você... Nessa data querida...! - eles começaram a cantar e eu fiquei paralisada.
Eu nunca tive uma festa surpresa. Há dois dias havia confessado isso a Ashley, claro que ela não perdera a oportunidade de tornar realidade meu sonho.
- Ai, vocês não existem! - levei as mãos ao rosto de emoção e apaguei as velhinhas.
O bolo era de chocolate, escrito com glacê branco: “Parabéns, V”. Ao lado docinhos, salgadinhos, torta salgada.
- Vocês conseguiram esconder isso direitinho de mim! - ri e bati palmas, feliz, radiante por ser tão querida.
Ashley colocou o aparelho de som na varanda e todos se acomodaram para comer, beber, conversar e dançar!
- Obrigada! Que máximo! - abracei Ashley.
- E sabe quem quer te dar os parabéns de maneira especial?
- Quem? - franzi a testa.
- O Alex! - ela fez um ar de “Não é um máximo”?
- O que ele ia querer comigo? - assustei-me.
Vamos abrir o histórico de Alex. Ele era “o cara- pode- tudo” do 3º ano. Se aparecesse de cabelo azul e saia de escocês, ninguém acharia nada de errado. Sua beleza lhe dava o passe para a glória. Qualquer coisa que partia da sua boca era “Ohhhh, que legal”. Achava até meio ridículo aquela idolatria, mas eu tinha dois olhos para enxergar o que era indiscutível: ele possuía todos os créditos no “cartão gostoso card”. Podia sacá-lo para adquirir qualquer que fosse seu desejo. Mas, eu não sabia que isso incluiria um beijo meu.
- Ele quer o quê? Ficar comigo? - certifiquei-me que tinha entendido certo.
- É. Só que pediu para eu te sondar antes.
- Nossa, isso que eu chamo de surpresa.
- Ah! Vai, não quer sentir aquele “Tudo” te dando um beijão?
- Bom, eu...
- Nessa, viva mais a vida. Já estou vendo teias na sua boca pela falta de uso.
- É... - dei um sorriso, tímida. - O que eu faço?
- Nada, deixa comigo. Posso?
- Ai... - fiquei uma pilha de nervos.
Ashley foi até Alex conversar com ele e eu permaneci atrás da pilastra, escondida de vergonha.
Adolescente pode não saber nada na prática, mas tem base de sobra na teoria. Já tinha folheado todos os artigos de revista sobre beijo. Porque a gente quer que seja perfeito, emocionante, que de fato os batimentos de 60 subam para o pico de 150.
Eu particularmente confesso que esperei por um beijo que me fizesse a perna levantar, como no filme Diário de uma Princesa. Aquela cena era exatamente o que eu queria, ouvir sininhos, sentir borboletas voando na minha barriga. Eu tinha visto, revisto e re-re-revisto os vídeos dos melhores beijos da premiação da MTV.
Sempre que me lembro, suspiro de emoção.
Assim, esperei ansiosa pelo meu. Tinha as regrinhas decoradas: “Não se apresse, deixe que o momento chegue; Faça movimentos suaves; Mova devagar a língua; Controle a saliva; Esteja com bom hálito; Não abra muito a boca; Cuidado com as mordidinhas’... e mais outros 189 mandamentos que eu jurava ser capaz de pôr em prática na primeira vez.
Eu era tão estudiosa no tema que sabia a quantidade de músculos da face que se movimentam em um beijo (29! Sendo que 17 só da língua). Imagina que queima 12 calorias!
Mas todo esse Phd em beijo não me serviu de nada, quando Alex veio para perto de mim.
- Oi. - disse.
- Oi. - respondi.
Que coisa tola! Como assim?
Ele não pediu licença, nada. O sinal verde já havia sido dado por Ashley. Alex colocou a mão debaixo da minha nuca e me olhou com cara de “Você não me escapa”.
Ainda afastei a cabeça para trás, querendo ganhar tempo e recordar o que precisava fazer. Alex colocou a língua na minha boca e ficou saliva para lá, para cá. Para piorar, bati o dente duas vezes. Isso era um beijo? O diretor da minha história tinha que imediatamente dar um grito no megafone e dizer “Corta, está horrível!”, só que a vida é real, não há script a ser regravado.
Parece que ficou bem claro na minha cara o resultado daquela primeira experiência catastrófica, porque Ahley foi a primeira a perceber. Que ótimo, agora ele poderia dizer para toda a escola o quanto eu beijava mal.
- E aí? - ela perguntou, quando Alex e eu nos separamos e voltamos para o centro da festa.
- Foi estranho. - respondi, com uma leve careta. Ashley e eu ficamos em um canto da varanda para as pessoas não nos ouvirem.
- Como assim? - ela franziu a testa. - Ele é o maior gato e dizem que beija muito bem.
- Então, o erro foi meu mesmo. - senti-me muito mal e envergonhada pela minha falta de habilidade.
- Hei, beijo é assim mesmo, bom com um cara, ruim com outro... - ela tentou me tranquilizar.
- Faltou emoção. - tentei achar o motivo.
- Mas Nessa, não tem como ter emoção, porque foi só uma ficada. Quando a gente fica, é só pelo carinho, pelo toque, beijo por beijo, não tem nenhuma explosão química.
- É, pode ser, eu estava esperando ver estrelinhas, me esquecer do mundo...
- Isso só vai conseguir com um amor de verdade. E enquanto não chega, você pode se divertir! - piscou o olho. - Olha, as primeiras vezes são assim, é igual perder a virgindade, mas também, quando melhora é “Uhuuu”.
Eu ri, ela estava certa, não iria ficar me cobrando. Só que o pior de tudo é que eu fiquei com medo de beijar de novo, de ser tão ruim quanto.
- Para te animar, eu tenho um presente que uma pessoa mandou te dar.
Ela me puxou pelo braço e me levou até a cozinha da casa.
- Nunca ninguém deve ter te dado uma coisa tão... Diferente! - ela riu e mostrou o aquário em cima do armário.
- Para mim?! - apontei para o meu peito. - Como sabe que eu ia gostar! - sorri e fiz um carinho com o dedo no vidro para chamar atenção do peixe amarelo.
- Eu não, ele. - entregou-me um cartão.
Franzi a testa e abri o envelope. Era a letra de Zachary, fina, inclinada e de uns rabiscos quase artísticos:
Não podemos substituir pessoas, nem animais que perdemos. Mas podemos ceder-lhes lugar no espaço que ficou vazio. Por isso, já que ficou tão triste com a perda do peixe sem nome, achei que ia gostar de ter um para você batizar. Obs= “Dessa vez, pode todos os nomes, exceto as variantes de Zachary. Beijos do seu “não sei o quê”.”
Eu ri e meus olhos estavam brilhando, senti um frio na barriga.
- Ele é doido! - beijei o papel. - Quando Zachary deixou isso aqui?! - perguntei.
- Quando veio me trazer o dinheiro para a festa. - contou.
- Como assim? Não foram vocês que fizeram a festa surpresa? - perguntei.
- Bom, cada um trouxe um prato de comida. Mas o bolo e o refrigerante foram por conta dele. Eu perguntei se ele podia ajudar e prontamente disse que sim.
- Não acredito! E por que ele não está aqui?
- Zachary disse que, se você perguntasse isso... - ela achou graça dele ter adivinhado minha reação. - ... Era para eu explicar que ficaria em reunião o dia todo no trabalho e não poderia vir.
- Ah! Que pena. - continuei olhando o bilhete, como se fosse a primeira vez que o lia.
Ao chegar em casa, senti que precisava da minha cama absurdamente. Cai de costas e fiquei olhando o teto. Eu estava feliz pela festa, mas frustrada com a falta de êxtase do meu primeiro beijo. Essas coisas de revista teen supostamente eram escritas por estagiários que comiam pizza em cima do teclado e não tinham nada mais profundo para escrever que inventar falsas expectativas a respeito do beijo.
Sentei-me diante do pc e conectei-me ao facebook. Uma mensagem offline do Josh me avisava que havia mandado um email por causa do meu aniversário.
Oi, Nessa! Feliz Niver! É muito bom conversar com você. Senti sua falta esses dias. Acredita que sonhei contigo?! É, foi um sonho meio doido, mas te conto depois. Eu li seu último email. Você disse-me que não entendeu nada do que eu tinha lhe dito no email anterior... Bom, então vou reenviá-lo agora com tradução. Saudade de você, garota!
Eu sorri. Josh era um garoto muito legal. Quando a gente conhece alguma pessoa pela Internet, é semelhante a escrever um livro. Fazemos literatura com a pessoa, moldamos na nossa cabeça alguém que queremos que seja.
Josh e eu nos falávamos regularmente, mas dependia de quando sua namorada entrava no facebook também, aí o tempo para mim se reduzia. Porque aí o monopólio era dela. Eu sentia um friozinho, quando ele ficava online e esperava que viesse falar comigo.
Era um delicioso joguinho a troca de frases de duplo sentido, as zoações. Eu deixava o pudor de lado. Contava tudo para Josh. Afinal, não tinha expectativa em conhecê-lo, ele era noivo. Mas, com o tempo, eu percebi que estava me deixando envolver demais e ele também.
Josh gostava de abrir o seu mundo para mim, mesmo que em certos momentos precisasse de legenda para entendê-lo, como no último email criptografado que acabava de me reenviar:
Oi, Nessa. Foi mal ter saído tão rápido da net, ontem. Já deve ter se acostumado, eu sempre correndo. O Bizu (dica) é entrar mais cedo, porque o sono bate legal lá pelas nove e meia, senão eu toro (durmo).
Continuando nosso assunto... Tu me perguntou o que eu estava achando da ideia de casar. Estou feliz, ta? Só que cheio de medo. Vou sair daqui e fazer vários cursos, no início, praticamente não ficarei em casa. Tenho que acompanhar o recrutas que vão se alistar e sair de lá do quartel tarde. Se ela estiver pensando que vou dar toda atenção, só porque sai da academia, barro (ferrou). Eu não tenho muita escolha, ficarei no sanhaço (situação preocupante). Ela de um lado com nosso filho precisando de mim e de outro o trabalho me sugando. Sem contar que não sou safo (tenho habilidade) com crianças, é mais fácil eu pagar uma babá que trocar fraldas. Minha noiva esperou três anos e acha que tudo vai virar um mar de rosas depois. Pelo contrário, tudo que eu não vou fazer é acochambrar (ficar de corpo mole), tenho que mostrar serviço mesmo, aspirante é para isso.
Ai, Nessa, queria voltar no tempo e namorar, só namorar, não ter compromisso rígido com uma mulher madura, nem com um filho que demande tudo de mim. Eu é que quero colo. Não digo isso para ninguém, só para você porque confio em você! Tá osso, gata. (Tá difícil).
É hora de papirar (estudar) e largar esse facebook. Amanhã não posso cartear (enrolar) na prova, senão minha classificação vai lá embaixo e eu não vou poder escolher uma unidade legal ano que vem, para mim qualquer uma seria boa, mas para ela e o bebê é outra história! Com esses dois, que agora dependem de mim, eu não posso cagar o*****(fazer algo errado).
Vou te contar meus planos. Era assim: me formar, fazer cursos, sair, namorar e ajeitar minha vida. Última forma (esquece, desconsidere)! Agora será casar, cuidar de um filho e bancar uma casa.
Eu acho que você está certa, te apoio na ideia que teve: vá arrumar um emprego sim. Gaivota (ponto certo) para você! Pensa só? Você terá sua grana, seu pai vai se orgulhar de você. Só que tipo, ele também pode não gostar, gata, tu vai ser mais independente dele.
Aproveita mais sua vida de jovem, sai fazendo tudo que quer. Não pensa demais não, porque de uma hora para outra você é cruzetada (fica em uma situação indesejável). Beijo, gata.
Balancei a cabeça para os lados. Ele era doido. Como podia amar a namorada e me chamar de “gata” toda hora? Que sentimentos ele estava nutrindo por mim? Era certo ficar com “gata” para lá, “gata” para cá, tendo compromisso com alguém? Ou o relacionamento dele já nem estava tão bom assim que ele se deixava ser tão permissivo.
Perai, ou eu queria enxergar tudo isso?!
Pááára, Nessa, de se questionar! Briguei comigo mesma.
Cliquei no botão “Responder” do e-mail:
Fala, cadete?! Bom, valeu pelo niver e pela tradução do email. Então, hoje meus amigos fizeram um niver para mim. Meu papi foi o máximo, pagou boa parte da surpresa. Acabou que ganhei um beijo... Ta, não foi o melhor que...
Subiu a plaquinha avisando que Josh entrou no facebook, antes que eu tivesse terminado de enviar o email.
Jo diz:
Oi, aniversariante!
Nessa diz:
Oi.
Jo diz:
Tenho que estudar, só passei para te dizer que estou com saudade.
Nessa diz:
Mentira, me esqueceu!
Jo diz:
Difícil é não pensar em vc
Nessa diz:
Tem uma música que diz isso.
Jo diz:
Viu que mudei meu nick p Jo? De tanto vc me chamar assim.
Nessa diz:
Vi.
Jo diz:
Opa, ela entrou. Depois nos falamos.
Nessa diz:
Aaaaah. Ta bom. T+
Jo diz:
T+, gata.
Achei melhor continuar o e-mail e enviar, porque hoje Josh não teria mais tempo.
Contei-lhe rapidamente tudo e sai do facebook. Esperei Zachary para o jantar, mas nada. Eu já estava dormindo quando ele entrou no meu quarto.
- Que horas são? - liguei a luz do abajur.
- Ainda não é meia-noite e posso te dar parabéns. - sentou na minha cama, ainda fardado.
- Foi perfeita a festa, foi perfeito o seu presente... - só não acrescentei que não tinha sido perfeito o meu primeiro beijo. - ... Já até dei um nome para nosso peixe, Zac.
- É? - ele afastou o meu cabelo do rosto e levantou as sobrancelhas.
Sentei-me na cama.
- Hum-hum. Adivinha? - perguntei e tirei sua boina.
- Não faz isso, eu fico com o cabelo arrepiado.
- Que cabelo? Você só tem uns pelinhos na cabeça! Vive raspado. - ri.
- Que nome deu para o peixe? - pegou a boina de volta.
- Nemo.
- Olha, quanta criatividade!
- Ah! Zac, não zoa!
- O Nemo não era azul? - perguntou.
- Ah! Zac, você não entende nada né? O Nemo era laranja e a Dori, azul.
Ele balançou a cabeça para os lados, aposto que me achou uma criança com aquela voz de desenho animado.
- Eu gostaria de estar mais presente... Lamento, meu trabalho precisa de mim e...
- Zac, eu entendo. - interrompi-o.
- Eu fico feliz que estejamos bem. - disse-me. - Desde o baile...
- Esquece isso.
- Eu enfrento tantas guerras, Nessa, que, quando chego em casa, só quero paz. Não quero encontrar ninguém para lutar contra.
- Eu sei. - sorri e escorreguei para debaixo do lençol. - Qual será o meu presente no ano que vem?
- Hum. Acho que um elefante branco que vou trazer pela tromba sala à dentro e te dar.
- É, você irá se superar.
- Mas dessa vez eu vou dar um nome criativo. - ele levantou-se para sair.
- Qual?
- Vanifante!
- Aaaahhhh! - peguei uma almofada e arremessei na cabeça dele. - Ridículo! - Zac se abaixou e a almofada de coração bateu na parede.
Ele riu e fechou a porta.
É, agora eu já tinha 18 anos, um beijo computado, um peixe e Zac, meu "não sei o quê".
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Gooood Morning!! :D
Ai deus essa narração da Vanessa sobre o beijo eu ri!! kkkkk
Ta na hora da Vanessa descobri que está apaixonada pelo Zac 
#SoAcho mais alguém ai concorda??
E essa conversa dos dois ai? ♥♥♥
Comentem ai!!
Obrigada pelos comentários
E até mais girls!!

Um comentário:

  1. super concordo,hehe
    a Vanessa é meio lerdinha né?!
    também passou da hora de ela perceber que o Zac gosta dela
    cara,e esse beijo?!kkkkk
    a Vanessa é hilária
    amei o capítulo ♥♥♥
    posta mais,kisses

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